30 de março de 2017

Seis quase poemas de fé



















I

No tempo dessa breve vida
Onde tudo é tão superficial
As palavras e os encontros
Não existe nada mais profundo
Do que a pele em torno
Dos nossos olhos
Há tanta alma revelada ali
Tanta escuridão e tanta luz
É na pele em torno dos olhos
Que a gente percebe
A profundidade das nossas dores
A superfície das nossas alegrias
E as feridas das nossas batalhas de fé...

II

O futuro promete
Mas estou escaldado
Já fui enganado
Tantas vezes
Não sei
Arriscar?
Outra vez?
Outra vez não
Seguro morreu de velho
Na incerteza do amanhã
Levo o meu passado comigo...

III

Anjo, eu sei que não sou
A minha mãe sempre me disse
Nem mesmo daqueles feios
Da casta dos caídos
Eu presto para ser...
Definitivamente
Isso decepciona
Tanta gente
Não tenho vocação 
Para ser diabo

IV

Tentei viver e andar por fé
Se deu mal..., diz o diabo
Aqueles que me olham de longe
Dão risadas e apontam o dedo
Replico: não perdi nada
O meu coração é milionário
De coisas que o dinheiro
Não pode comprar
O diabo solta uma gargalhada
E diz: Esse tonto é milionário
De coisas que não faz falta a ninguém
Sigo o meu caminho           
Deixo as gargalhadas para trás
Perdi também o antigo gosto
De revidar qualquer provocação

V

Não me procurem mais no deserto
Parti numa longa viagem
O caminho é estreito
Demasiado estreito
Não tenho espada
Bagagem, documento
Dinheiro ou carteira
Tudo que tenho eu levo comigo
Algumas décadas de vida
Um par de olhos cansados
Dois sonhos, uma esperança
Duas pernas bambas
Duas mãos trêmulas
Palavras trôpegas
E um coração de aço...

VI

Toque os meus olhos, meu Deus
Estou cego... estou surdo
Dispersa essas nuvens de solidão
Deixe-me tocar o seu rosto
Quero ver o meu reflexo
Refletido no fundo dos seus olhos
Eis a minha mão... Eis o meu coração
Busco um pouco de comunhão
Firma os meus pés nesse chão
Que aí vem chegando outra escuridão
Ilumina com calma a minha alma
E eu te verei com os meus olhos
Acendam a luz... Hoje eu quero sentir a vida
Dançando na superfície da minha pele...
_VBMello

Mistérios e assombros
















Nunca vi anjo / nunca vi disco voador / só no cinema e na TV
Mas conheço gente / que diz que já viu de tudo um pouco
Não duvido... / não duvido de mais nada
Histórias de mistério / e casos de assombro
Na cabeça das pessoas / e nos céus deste mundo
Existe de tudo um pouco.. / e muito mais...













Para mim, mistério não é ver coisa sobrenatural
Mistério é o ar que eu respiro, que só tem aqui
Nesse estranho e belo planetinha azul
Mistério é formiga voadora e planta carnívora
Que não tem nem em Marte, nem na Lua
Mistério é flor desabrochando na beira da estrada
Desafiando o contínuo atropelo dos carros




Gosto das flores simples que nascem largadas
Livres no campo, filhas do vento, irmãs das chuvas
Gosto de cheiro de capim e terra molhada
Prefiro ouvir o cantos dos pássaros
Do que ir atrás de disco voador

















O meu prazer não é ver disco voador
É comer torresmo com arroz
E o meu assombro não é topar com anjo
É olhar pássaro voando sobre as ondas do mar












Trovoada, vento soprando e chuva caindo
E revoada de formiga, me encanta muito mais
Tenho mania de desconfiança, solidão e silêncio
Não tenho mania de mistérios, anjos e discos voadores
Tenho um encantamento perturbador pelo que é natural
Fico mais encantado com formiga do que com dinossauro














O sangue correndo nas veias
O coração pulsando no peito
O pôr do sol
O céu estrelado
O dia nublado
Olhar a chuva pela fresta da janela
Uma cadeira para sentar
Uma bicicleta para pedalar
Um mar para mergulhar
Uma cama para deitar
E uma boa noite de sono
Na questão dos milagres
Sou bem modesto
Não quero mais nada
É isso que me encanta 
Me assombra e me enche de gratidão














É verdade, estou numa fase muito estranha
Sou um pós-decepcionado com esses mistérios do ar
Os meus assombros, ver formiga e olhar chuva
Coisa estranha, não assombram mais ninguém
Estou vivendo uma imensa solidão de mistérios...
_VBMello

Poesia também é dom de Deus











Não quero fazer sermão
Quero fazer poesia
Sem nenhuma implicação
Com a autoridade da bondade
Falar direto ao coração
Rir das coisas bobas da vida
Brincar na chuva
Falar bobagens
Comer bife com batata frita
Ver filme ruim e dar risadas
Saquear a geladeira no meio da madrugada
Aceitar a minha cara no reflexo do espelho
Ouvir música boa, comer bons livros
E pressentir a eternidade num grão de areia                          
Aprender humildade com os lírios do campo
E fé com pássaros que não plantam
Não colhem, nem ajuntam em celeiros
Sim, quero profetas do evangelhos e boa poesia
Quero poetas do evangelho e evangelho em poesia


Temos muitos profetas, um mar deles
Entre os falsos, alguns verdadeiros
Mas estamos em falta de poetas
Temos muita prosa, mas não temos versos
Temos muitos pulos e gritos
Sacrifícios, pedidos e promessas
Mas estamos em crise de silêncios
De tanta palavra enfeitada e ensaiada
Estamos ficando sem ter o que falar
Estamos cada vez mais gananciosos e infantis
E cada vez mais longe da pureza das crianças
Cheios de coisas supérfluas e vazios existenciais
Esquecemos muitas coisas bonitas e simples
Que os antigos sabiam de alma e coração


Poesia também é dom do Espírito Santo
É dom de cura, dom de discernimento
Dom de avivamento de alma
É língua estranha e declaração de amor
Testemunha das verdades e esperanças do coração
Coisa que faz rir, chorar, amar e pensar
Voz de consolação, clamor de libertação
Linguagem esquecida do espírito
Novidade de vida e alívio de fardos
Amadurecimento dos sentidos
Ânimo e vitória contra a dores e angústias de morte
Murmúrios e vislumbres inefáveis de outro mundo
Com efeito, todos os verdadeiros profetas e poetas
Sabem que onde Deus habita, há, necessariamente, poesia
Sabem que a beleza da poesia também é dom espiritual
Epifania e sinal inefável da presença do Espírito de Deus
Passeando, falando e agindo no meio de nós
Viciados em mania de grandeza e cegos e surdos 
Para a poesia, beleza e simplicidade das coisas de Deus...
_VBMello

29 de março de 2017

Queria ser poeta




Você não pode imaginar
A minha fé em Deus
Não sei como falar
Me desconcerta
É indizível
Um mistério numinoso
Que sempre me surpreende


Como uma flecha de luz
No meio da noite escura
Suave como uma brisa
Potente como um coice
Ela vem e me acerta
Bem no peito cheio de dúvidas
E me desarranja de uma vez


E eu fico ali, prostrado
Com cara de bobo
Sem saber o que falar
Os joelhos fincados no chão
E os dois braços mirrados
Estendidos para o céu
Pedindo colo a Deus
A alma que nem formigueiro
Formigando de vida
Minando palavras
Pela ferida aberta dos meus lábios
Mas é pouco... Não é suficiente


Queria ser poeta
Queria ter outras palavras
Para saber dizer com beleza
Tudo que eu sinto na alma
O sangue pulsando nas artérias
E o coração gritando no peito escoiceado
Mas não posso... Como poderia?


Algumas coisas
Que Deus faz
São tão inefáveis
Eu sinto o vento soprar
E o coração arder
Mas não tenho nada para dizer, só agradecer
_VBMello

Cair, levantar, correr, amar









Minha mãe nunca disse
Minha avó nunca disse

Não precisava
Tava na cara
Nasci sabendo

Desde pequenininho
Tenho parte com Deus
Nunca estou destruído
Desconstruído, às vezes
Destruído, jamais...

Das mortes que o mundo me prepara
Estou sempre renascendo

Cair, levantar, chorar
Admirar as estrelas, orar
Plantar uma árvore
Mergulhar, lutar, falar, calar...
Cair de novo... Mas nunca parar

Levantar, correr, pular, sofrer, amar
Sim, eu tenho parte com Deus
Querer ir mais além - eu sei -, é a minha sina
_VBMello